Em meus olhos você não vê orgulho
Em meus olhos você não vê brilho
Em meus olhos você vê uma lágrima
Em meus olhos você vê meu medo
Em meus olhos você vê meu amor
Em meus olhos você não vê compromisso
Em meus olhos você vê meu ódio
Em meus olhos você vê meu destino.

All alone - The sins of Thy beloved

Claire andava inquieta ultimamente, mais do que o normal. As horas custavam a passar, e ela queria que chegasse logo a noite.

Sim, a noite, sua companheira.

Sua diversão no momento era freqüentar um círculo de jovens que não apenas acreditavam, mas agiam e trocavam sangue como se fossem vampiros.

"Não, Claire! Somos humanos e sabemos disso. Apenas apreciamos o modo negro de se viver, a excitação da troca de sangue. Você nos entende?"

Claire não entendia. E nem estava aí para entender ou não. Queria estar ali, com eles, trocando sangue e experiências sexuais. Eram orgias fenomenais, regadas a muito vinho (como Bacantes), e sangue. Existia toda uma preparação para determinadas noites, quando todas as garotas estavam menstruadas. Era o ápice, era bom demais.

"Nenhum homem, ninguém nunca despertou toda minha sexualidade como esse grupo conseguiu."

Como o maligno vampiro Sammael chegou à cidade de Sistinas. - Sistinas, contos de vampiros eróticos

Claire era branca, não muito alta, cabelos pretos, e grandes olhos castanhos. Eram muito bonitos, mas inexpressivos. Ela nunca conseguia dizer nada com apenas um olhar. Sua palidez contrastava com o sobretudo negro surrado que gostava de vestir. Um justo vestido, preto também, fazia o resto do figurino. Calçava botas, o que a deixava com aquele ar de prostituta fracassada.

Ela costumava se maquiar, para logo depois dar uma leve borrada. Sempre parecia estar acordando naquele exato momento. Menos pela boca, carnuda. Possuía lábios muito grossos e enlouquecedores. Sempre caprichava no batom. Lábios vermelhos fatais. Assim como as unhas, cuidadas com esmero. Se tinha algo que Claire fazia com muito carinho, eram as unhas. Longas e escarlates.

Morava sozinha, desde que se mudara para Sistinas. Fazia apenas seis meses que ela chegara na cidade. Ainda estava descobrindo a noite, mas já tinha seus amigos. Com seu jeito de ser, sempre recebeu propostas para ser prostituta. Sabia que podia ser uma, e das boas. Mas não queria. Não agora. Ao contrário, tinha um emprego safado de garçonete. Era bem tratada, até por que o patrão sabia que Claire atraía muita freguesia. E ela sabia disso. Pedia um salário aceitável, e recebia em dia.

Quando chegava em casa, tarde da noite e sozinha, era a atração da vizinhança. Todos pensavam que ela se prostituía. Profissão mais do que normal para as garotas dali. Imagine então para uma forasteira? Mas Claire não se importava com os comentários.

Olhou para fora. A tarde caía em Sistinas. Avermelhada, como se colocassem uma lente vermelha frente ao Sol, que nunca parecia brilhar o suficiente naquela cidade. Esperava ansiosa para tirar aquele avental ridículo de garçonete.

Faltava pouco agora. Em algumas horas estaria em casa, se prepararia e iria ao encontro do grupo. Esteve muito excitada durante o dia todo. Chegou ao extremo de ter que se masturbar no horário de almoço. Sabia exatamente o por que de sua libido estar tão alta. Sempre ficava mais propensa ao sexo durante o período menstrual. Era inevitável. Antes, reprimia esse sentimento. Nenhum de seus antigos homens transava com ela durante esses dias. Mas ultimamente tudo mudou. A garçonete enfim descobriu ser um vulcão nesse período, e achou os parceiros certos para desfrutar.


Faltavam dois minutos para a meia-noite quando Claire entrou no local. Ficava mais familiar cada vez que ela voltava, mas nunca se acostumaria de verdade. A "Caverna" - como era chamado - tinha uma curiosa decoração pós-apocalíptica. Diversas correntes caíam do teto, gaiolas vazias davam apenas uma certa idéia do que poderia ter ocorrido por ali, em outras noites.

A parte que mais chamava a atenção de Claire era na sala principal, onde a seita costumava beber sangue. Tinha sempre algum detalhe a mais, de acordo com a época do ano, ou alguns feriados pertinentes. Mas basicamente era o mesmo casal. Uma boneca inflável e seu eterno parceiro, um "crash-test dummie", aqueles bonecos que as montadoras de veículos criam para testar a segurança em seus carros.

Estavam sempre na mesma posição. A bonequinha de quatro, o rosto coberto por uma máscara de gás, sendo duramente currada pelo boneco, que usava um cinto equipado com um enorme pênis de borracha.

Claire foi recebida por um dos "sócios", e olhando para o casal boneco, sorriu:

-Por que vocês não tiram a máscara da pobrezinha? Ela quer gritar, dizer que está adorando, essas coisas...

-Você já viu coisa mais feia do que a boca de uma boneca inflável? - respondeu o homem.

Os dois entraram na sala rindo muito, quando Claire viu que tinha alguém novo no lugar. Sem saber explicar direito, aquilo a excitou mais.

-Ah, Claire, aquele ali é o Sammael, o dono do clube Devil´s Whorehouse, acredita? E veio nos visitar. Uma pessoa comentou que gostamos de trocar sangue entre nós, e ele se interessou. Não é demais?

Claire não estava ouvindo. Estava olhando para a figura sentada dentro de um círculo de pessoas na sua frente. Era um homem muito forte, que se diferenciava por isso. Todos os outros do salão eram magros, esguios. Assim como Claire, ele não era muito alto. Longos cabelos, muito bem cuidados, lhe davam uma aparência exótica. De longe Claire olhava os detalhes do homem, a pouca pele que aparecia por baixo da roupa pesada que usava era estranha, com muitas cicatrizes. Algumas tatuagens de praxe, porém em nada parecidas com qualquer coisa que ela já tivesse visto antes. Pareciam estranhamente antigas.

Foi nesse momento de estudo, que ele voltou-se para ela. Não foi um olhar comum.

Claire já tinha sido alvo de olhares desejosos, cantadas sofisticadas e outras nem tanto. Mas aquele olhar... Como explicar? Sentiu-se mais que desejada, sentiu-se despida, pequena, ingênua, indefesa, tudo ao mesmo tempo.

Sentiu-se explorada.

Desviou os olhos, confusa. Nunca tinha negado um olhar, nem baixado a cabeça antes. Mas, naquele momento, preferiu ceder. Sentiu, mesmo sem ver, o sorriso de Sammael.

-Bem, Claire, você que chegou agora, quer assistir o ritual da leitura das treze regras para nosso mais novo membro?

Ela não era a única mulher do lugar. Suas outras duas amigas estavam ali também. Sentou-se ao lado delas, e respondeu:

-Claro. Vocês já vão começar?

-Sim. Silêncio. Agora vamos aceitar Sammael como nosso novo membro. Uma honra, pela figura importante da noite de Sistinas que ele é. Sei que não poderá estar todas as noites conosco, mas eu espero que esteja sempre que puder.

Sammael concordou com a cabeça. Claire ainda não tinha ouvido a voz dele. E percebeu que queria muito ouvi-la.

O membro fundador da seita começou a ler o código que eles adotaram como "regras de conduta".

-Regra número um. DISCRIÇÃO: Este estilo de vida é particular e sagrado. Respeite isto, não faça dele um assunto secundário. Nós não temos que nos provar para ninguém. Aparecer na televisão contando ao mundo que você bebe sangue é atrair atenção desnecessária. Nosso lugar é nas sombras.

-Nunca esconda sua natureza, mas nunca mostre a quem não entende. - disse Cassandra, uma das amigas de Claire, ao seu lado.

Sammael olhou para todos, e acenou que havia entendido.

"Por que o maldito não fala algo?" - pensou Claire. A maneira como Sammael lhe olhou em seguida quase a fez acreditar que ele lia pensamentos.

-Regra número dois. DIVERSIDADE: Nossos caminhos são muitos, ainda que a viagem em que todos nós estamos seja essencialmente a mesma. Respeite todas as visões e práticas pessoais.

-Nossa diversidade é nossa força. Deixe que nossas diferenças de ponto de vista apenas nos enriqueça, mas nunca nos divida. - entoôu Cassandra.

Sammael acenou novamente.

-Regra número três. SEGURANÇA: Alimente-se em lugares particulares e tenha certeza que seus doadores serão discretos. Doadores que criam rumores e fofocas sobre nós não são bem-vindos. Se você se empenha em beber sangue, coloque a segurança e o cuidado acima de tudo. Doenças sanguíneas são uma realidade, e não podemos arriscar pôr em perigo nós mesmos ou outros de nós por sua irresponsabilidade.

-Observe cuidadosamente seus doadores, certificando-se de que eles são de boa saúde, tanto física como mental. A segurança da comunidade inteira descansa sob os cuidados de cada membro. - continuou Cassandra.

Claire esperou novamente pela voz de Sammael, que não veio.

-Regra número quatro. CONTROLE: Não podemos e nem devemos negar nossa escuridão interior. Nem devemos permitir que ela nos controle. Nunca permita a violência. Nunca machuque quem te sustenta. Nunca alimente-se unicamente pelo fato de se alimentar, e nunca entregue-se à sede de sangue descuidada.

-Não somos monstros: nós somos capazes de pensar racionalmente e temos auto-controle. Celebre a escuridão e deixe que isso lhe dê poderes, mas nunca deixe que ela escravize sua vontade. - disse Cassandra.

Sammael deu um sorriso irônico, que todos acreditaram ser apenas uma piadinha. Estavam errados, todos eles, mas não sabiam.

-Regra número cinco. ESTILO DE VIDA: Explore e use sua natureza vampírica, mas coloque isso na balança com as necessidades materiais. Lembre-se: nós podemos ser vampiros, mas ainda fazemos parte deste mundo. Devemos levar nossas vidas normalmente, com nossos trabalhos, nossas casas, e progredindo com nossos vizinhos.

-Ser o que somos não é uma desculpa para não participarmos desta realidade. Melhor, isto é uma obrigação para fazermos dela um lugar melhor para vivermos.

Enfim Sammael falou:

-Podem ter certeza disso. É exatamente assim que penso.

Claire a princípio não notou nada de especial na voz dele. Era normal. Sentiu-se um pouco decepcionada.

-Regra número seis. FAMÍLIA: Somos, todos nós, uma família, e como toda família, nem todos os membros progridem. Entretanto, respeite a comunidade durante suas disputas.

-Como toda família normal, devemos sempre fazer um esforço para apresentar uma aparência estável e unificada ao resto do mundo, até mesmo quando as coisas não estão perfeitas entre nós.

-Regra número sete. ABRIGOS: Nossos abrigos são locais seguros onde todos na comunidade podem comparecer. Há também outros lugares públicos, onde costumamos ir para encontrar pessoas que não sejam do nosso meio. Devemos sempre respeitar estes lugares e sermos discretos em nosso comportamento.

-O abrigo é o centro da comunidade inteira, e nós devemos respeitá-lo como tal, trabalhando para melhorar seu nome na comunidade, de modo que nós todos possamos sempre chamá-la de lar.

Sammael ouviu a última frase de Cassandra, e deu um risinho:

-É esse o espírito de meu Devil´s Whorehouse também. - concluiu.

-Regra número oito. TERRITÓRIO: Toda cidade tem suas maneiras diferentes de se fazer as coisas, e regras diferentes de hierarquia. Quando entrar em uma nova cidade, você deverá familiarizar-se com a comunidade local.

Antes que Cassandra acompanhasse o líder, Claire sorriu, pedindo:

-Essa regra eu conheço bem. Posso recitar o resto?

-Claro. - disse Cassandra, meio contrariada.

-Sempre siga seu melhor comportamento quando chegar em uma nova cidade, seja para visitar ou ficar. Somos todos territoriais e prudentes por natureza, e somente causando a melhor das impressões será possível ser aceito e respeitado em uma nova comunidade.

-Você é nova na cidade, criança? - perguntou Sammael, curioso.

-Sim, moro em Sistinas faz seis meses.

-Hum, que interessante...

Claire ficou durante as próximas regras tentando entender o que ele quis dizer com aquilo.

-Regra número nove. RESPONSABILIDADE: Este estilo de vida não é para qualquer um. Escolha com cuidado suas crias.

-Você será responsável pelas ações de seus escolhidos, e o comportamento deles na comunidade será refletido em você. - continuou Cassandra.

-Muito prudente. - limitou-se a dizer Sammael.

-Regra número dez. ANCIÕES: Existem membros que estabeleceram-se como líderes por sua responsabilidade. Eles são as pessoas que ajudam a estabelecer as comunidades locais, que organizam os abrigos, e que trabalham e coordenam a rede de nossa cultura. Eles têm mais experiência que muitos outros, e geralmente mais sabedoria também.

-Aprecie os anciões por tudo que eles têm dado à você: se não fosse pela dedicação deles, a comunidade não existiria organizada como é hoje.

-Devo acatar as ordens de alguém, é isso? - questionou Sammael.

-Exatamente. Mas como estamos entre amigos, essa regra é mais decorativa que prática. Apenas seja responsável, e tudo se encaixa. - respondeu o líder da seita.

O convidado sorriu, e acenou para continuar.

-Regra número onze. DOADORES: Sem aqueles que nos oferecem seus corpos e almas, não seríamos nada. São os doadores que sustentam nossa natureza. Por isso, eles devem ser respeitados. Nunca maltrate seus doadores, física ou emocionalmente.

-Aprecie a camaradagem e aceitação que eles oferecem à nós, que tantos outros poderiam recusar.

-Certo. Vou me lembrar disso. -  aquela ladainha toda decorada parecia estar cansando Sammael.

-Regra número doze. LIDERANÇA: Quando você escolhe tomar uma posição de autoridade na comunidade, lembre-se de que você não fez nada sozinho. Liderança é uma responsabilidade, não um privilégio. Um bom líder deve dar o exemplo para todos através de suas ações. Seus motivos devem ser puros, e ele deve colocar os interesses da comunidade inteira acima de tudo.

-Os melhores líderes são os que servem melhor para a comunidade e cuja pessoa e comportamento não dão a ninguém - até mesmo aqueles de fora da comunidade - razões para criticá-los. Eles devem lutar para estar acima de qualquer censura.

-Acho que não aspiro a liderança dessa seita, irmãos. Podem passar para a última regra.

-Regra número treze. IDEAIS: Ser um vampiro não é somente se alimentar da vida. Isso é o que fazemos, mas não necessariamente o que somos. É nossa maneira de representar a escuridão em um mundo cegado pela luz. É ser diferente, e aceitar essa diferença como a coisa que nos torna únicos. É aceitar a escuridão que carregamos e abraçá-la para termos uma existência plena. É celebrar corpo e espírito, prazer e dor, morte e vida.

-Nossas vidas devem ser vividas como uma mensagem ao mundo sobre a beleza de se aceitar a pessoa inteira, de viver sem culpa e sem vergonha, celebrando a essência individual e bela de cada alma única. - encerrou cerimoniosamente Cassandra.

Sammael pareceu ter refletido apenas sobre a última regra. Ficou pensando por uns instantes e depois balançou a cabeça, como se estivesse negando alguma idéia que tenha surgido em sua mente.

-Você entendeu e aceitou todas as regras? Quer fazer parte de nossa comunidade? - perguntou enfim Cassandra.

-Antes que responda, quero deixar claro que usamos o termo "vampiros" apenas no sentido figurado. Somos pessoas normais, que trabalhamos, temos família, amigos e etc. Apenas usamos essa alcunha para compartilharmos entre nós o fetiche do sangue. Vampiros não existem, é claro.

-É claro. - Sammael repetiu sorrindo. Usou um tom de voz esquisito.

-Temos gente de todo tipo em nossa seita. Ou comunidade, como preferir. De banqueiros prósperos, até garçonetes. Sabe que temos em nossas fileiras até mesmo um ex-torturador, capaz de te dar o tipo de dor que você quiser? Existem pessoas que curtem dor e prazer. - disse o líder.

-E quem é ele, o torturador? - quis saber Sammael.

Cassandra levantou a mão, com um sorriso no rosto. "Sou eu."

O estranho ficou surpreso por um instante, e soltou uma gargalhada. Estendeu a mão para tocar Cassandra, e ficou subitamente sério.

-Os homens de hoje nada sabem sobre dor, comparado com os tribunais da Santa Inquisição. Lá sim você sofria, ou se entregava à dor. - disse, sombriamente, Sammael.

Ninguém entendeu o significado daquelas palavras, mas ninguém estava mesmo afim de descobrir. A noite prosseguiu, regada à vinho. As caixas de som do lugar duelavam músicas de Ian Curtis e seu Joy Division contra o Bauhaus de Peter Murphy. Tocavam X-Mal Deutschland, Clan of Xymox, The Cure, Siouxie, Sisters of Mercy, dentre outras bandas góticas famosas, outras nem tanto. Um clima sombrio hipnótico tomou conta dos presentes.

-Sammael, por que o seu clube está fechado hoje? - perguntou Angélique, a outra amiga de Claire, curiosa.

-Bem, o Devil´s Whorehouse está passando por... reformas de cenário! - ele respondeu, sério. Depois engajou-se numa conversa sobre filosofia e religião, debatendo com outros membros sobre assuntos diversos, inclusive defendendo que a destruição da mítica Sodoma não foi motivada por sexo, como todos pensam:

-No Gênesis da bíblia é narrado que dois anjos chegaram à cidade, e que a população degenerada quis "conhecê-los". À partir daí a ira divina destruiu tanto Sodoma quanto Gomorra. Mas esse termo "conhecer" não tem nenhuma conotação sexual, a não ser em nossa tradução moderna. Tanto que na cidade havia velhos e crianças, e esses com certeza não compartilhavam do desejo carnal. Na verdade eles odiavam estrangeiros, e sempre procuravam humilhar forasteiros.

-Sodoma foi destruída simplesmente por não ser hospitaleira? - indagou Cassandra.

-Na verdade foi a soberba, a ganância, o orgulho, a ociosidade e a fartura desperdiçada. Mas não foi o desejo de sexo com anjos. Nenhuma passagem bíblica sobre Sodoma e Gomorra fala de sexo.

Claire prestava toda sua atenção no estranho. Não gostava da voz dele ainda. Mas sua excitação subia como um termômetro. Já podia imaginar como seria sua madrugada.

Na primeira oportunidade em que ela se afastou do grupo, caminhou até sentar-se ao lado da boneca inflável. Reparava com muita atenção nas nervuras do pênis vestido pelo boneco quando ouviu aquela voz, mas agora soando de maneira muito diferente:

-Quero falar com você. A sós.

O corpo de Claire se arrepiou inteiro, e ela sentiu algo molhar entre as pernas. Aquilo não podia estar acontecendo. "Quer falar sobre Sodoma ou Gomorra?"

-Sobre sodomitas...

-Onde está Claire? - perguntou o líder da seita, alguns minutos depois.

-Ela está bem... muito bem! - limitou-se a dizer Cassandra, sorrindo. Apontou maliciosamente para a única suíte do lugar.

Nesse momento Claire estava experimentando todos os músculos do estranho Sammael. Ele era viril, tinha uma agressividade que ela nunca tinha sentido antes, e só agora sabia que era exatamente o que sempre procurou por toda sua curta vida.

-Eu farejo putinhas de longe sabia? E quando te vi pela primeira vez, você literalmente suava luxúria. - disse Sammael.

Claire estava ajoelhada. Parou momentâneamente de trabalhar com a boca para conseguir falar. No estado em que o estranho estava, ela sabia que dependendo da resposta, ele se acabaria de prazer e encheria sua boca.

-Você despertou minha libido. Quando te vi, não só transpirei. Molhei até a calcinha.

Sammael fez uma cara animalesca e segurou os cabelos de sua putinha. Colocou seu membro todo dentro da boca dela e retesou os músculos. O que Claire engoliu sem querer tinha um gosto estranho, sem aquela textura comum de esperma. Na verdade ela não soube o que engoliu. Mas o ato ainda assim era muito excitante. Nem teve tempo de se levantar quando foi jogada ao chão, com força mas sem exagero.

-Isso... me devora! Me mostra do que é capaz! - gritou, desafiando Sammael.

Foi virada de bruços, mas antes quase sentiu medo das feições dele. Claire gostava de usar uma coleirinha de couro preto adornando seu pescoço. Sentiu um puxão forte que jogou sua cabeça para trás quando ele a invadiu.

A mente de Claire na hora voltou até o casal de bonecos do salão, a cara de submissa da boneca inflável, impotente sem poder extravasar seu tesão. Quando Sammael a domou pela coleira, puxando com força e a penetrando com violência, ela passou a gritar como nunca.

-Mais! Com foooorçaa!!! Esperei tanto por isso! Continuaaaaaaa!!! Vai, filho da puta!!!

Lá fora, os membros da seita ouviam os gritos, incomodados. Quando Angélique teve a idéia de deixar alguém beber vinho nos seios dela, o clima enfim esquentou. A sala principal, que estava fechada a poucos membros da seita naquela noite, virou o palco de uma suruba escarlate regada à sangue e vinho. Cassandra e Angélique sumiram no meio da volúpia da maioria masculina do lugar.

Dentro da suíte, Sammael possuía Claire com toda sua força. Nunca uma putinha o tinha desafiado antes, e por isso ele fazia questão de machucar. Tinha planos para ela. Pensou também em Cassandra, a bela torturadora, que lhe seria útil no futuro.

Claire era penetrada e sua mente viajava em sensações contraditórias. Prazer, dor, poder, humilhação. Não sabia o que estava curtindo mais. Sabia que todos lá fora estavam ouvindo, e com isso compartilhando do prazer dela. Sentiu-se poderosa, a rainha da noite. Mas quando Sammael puxava a coleira de couro, ela virava uma cadelinha sendo domada por um dono sádico. Então agüentava as estocadas violentas machucando suas carnes molhadas, e sentia-se uma mulher realizada.

Sammael estava concentrado em sua vítima. Quando sentiu Claire molhar-se toda, misturando seu ciclo menstrual com a excitação, ele a encostou na parede. Ergueu a mulher com a maior facilidade, e ela teve a penetração mais profunda de sua vida. Nunca sentira nada igual. Estava em êxtase.

Quando Claire chegou a mais um orgasmo, contorceu-se toda nos braços dele, que a deixou caída no chão e montou por cima. Penetrou de novo, e até com mais vigor que antes. Claire olhava ainda com olhar desafiador, pensando em até quando agüentaria aquele ritmo. Já estava dolorida, mas não queria que aquilo acabasse. Não ainda.

Quando ele colocou a mão fechando sua boca, ela ficou com medo. Dedos poderosos. O rosto como uma máscara de ódio. Pela primeira vez temeu morrer. Isso a assustou e a excitou ao mesmo tempo. Vendo a empolgação da parceira, Sammael a penetrou atrás, uma coisa que ela raramente permitia. Impotente, segurou a dor de uma penetração seca, sem preparação e tensa. Quando enfim conseguiu suportar, ele começou a entrar mais forte. A dor voltou, tamanha que ela quase desmaiava, mas era essa a sensação única que perseguia.

Olhava para ele, que estava por cima, olho no olho, tão próximos, ela com a boca coberta pela mão forte, ele se metendo vigorosamente entre suas coxas. Claire destilava todo seu ódio e prazer num único olhar, e tentava enxergar o que Sammael sentia. Para ele o sexo parecia apenas um exercício de dominação. Tinha os olhos estranhos, sombrios, sem vida. Avermelhados. Mas odiavam. Era quase palpável. Ele a machucava e sentia prazer nisso.

Foi quando teve uma espécie de visão daquele macho viril deflorando virgens, tanto vaginais e anais, através dos tempos. Um delírio próximo ao gozo? Ele não parecia ser velho, mas algo nele era tão... antigo? Em sua mente Claire também imaginou que ele também arrebentava pregas masculinas, como um mentor grego ou romano transmitindo sua virilidade para efebos através do sexo anal.

A brusca mudança de posição que Sammael forçou interrompeu os delírios de Claire. Colocada de quatro como uma égua de exposição, ela sentiu seus joelhos doloridos contra o chão duro. Tão duro quanto o membro pelo qual esperava ser invadida. Mas a mão forte de Sammael novamente a levaria à uma região podre do prazer, aquela tênue linha entre a satisfação e a sensação de estar nadando na lama da depravação. Segurando o pulso de Claire, ele dirigiu a mão dela até entre as nádegas e pediu impaciente que ela enfiasse o dedo indicador no rabo. Ela soltou um gritinho de prazer quando enfiou. Primeiro um, depois ele pediu dois, até que a fez enfiar três dedos. Ela já gostava da sensação quando encaixou o quarto, e então Sammael aproximou-se, e ela sentiu o nervos do pau dele roçando os nós de seus dedos, tudo dentro dela. Ele enfiou tão fundo quanto pôde, ela viu estrelas e praticamente mijou nas próprias pernas com tanto gozo. Ele fez um som parecido com sorriso, praticamente a imobilizando naquela posição e então a penetrou. Seu membro entrava meio que por cima, ou excessivamente de lado, forçando ainda mais a musculatura interna. Apesar do prazer aquilo doía muito e o ritmo da investida dele foi aumentando gradualmente, até as lágrimas de Claire se misturarem com a saliva num grito descontrolado. Havia perdido a batalha... Ela nunca mais desafiaria Sammael!

Ele agora se jogava contra as nádegas dela, com tanta força que Claire se dobrou, encostando o rosto no chão. Não agüentando mais o braço esticado para trás, ela escorregou os dedos para fora do rabo, deixando tudo aberto para seu novo mestre. As pernas poderosas dele pareciam envolvê-la, até que ela sentiu o pé direito de Sammael pisando desdenhosamente em sua cabeça enquanto a enrabava. Ela tinha sido vencida enfim, mas sem poder se render. O estranho homem que não respirava não deixava. Qualquer outro naquela situação estaria ofegante, mas não ele. Claire quis pensar nesse detalhe, mas sua mente não funcionava. Não para isso. Ela só sentia a incômoda invasão que a machucava seguidamente. Finalmente Sammael retesou os músculos, seu membro pareceu aumentar de diâmetro e ele gozou. Novamente algo estranho, parecia até frio, uma coisa esquisita que a mente dela começou a não aceitar direito. O prazer tinha terminado.

Sobrou a dor. Sammael caiu de lado. Não respirava mesmo. E era o primeiro homem que trepava com ela e não suava. Nem uma única gota! Ao contrário de Claire, que sentia um gosto horrível nos lábios, tinha todo seu corpo dolorido, molhado de suor, de sangue, e secreções. E ela sabia que seu rabo agora estava aberto de maneira obscena, a musculatura tentando voltar ao lugar natural.

Juntou toda sua força de vontade, apesar de que no estado em que se encontrava, sentia-se pequena e indefesa. Levantou-se, sentindo em seu pescoço dolorido as marcas da coleirinha de couro. Olhou novamente para ele, e enfim perguntou:

-Quem é você?

-Sou seu sonho. Ou seu pesadelo. Depende do que sentiu nos últimos minutos.

Claire hesitou. A palavra nojo veio em sua mente. Ela não disse, mas ele leu em seus olhos, antes inexpressivos, mas que agora pareciam livros abertos.

-Você no íntimo gostou. Apenas não entendeu o que sou. Isso a deixou confusa.

A mulher baixou a cabeça, recusando-se a olhar para ele.

-Quanto ao que sou...

Claire esperou ele terminar a frase, mas isso não aconteceu. Um rosto horrível a encarou de perto, com dois olhos injetados, vermelhos. Peludo? Por um instante, a mulher não sabia se estava olhando para Sammael ou para um lobo. Apenas soube que já estava morta.

-Será minha eterna escrava. Terá dor e prazer por todas as noites da eternidade. Arrancada da luz do Sol, terá que procurar outras formas de acalmar suas perdas.

Ele abriu a boca, e seus dentes quase arrancaram a cabeça dela do pescoço. Foi quase um bálsamo perto de toda a dor que ela sentiu naquela noite. Quando a secou de todo o sangue, Claire deu um sorriso irônico, e tombou morta. Mas não por muito tempo.

Quando Sammael deixou a suíte, com sua nova escrava ao seu lado, observou uma cena grotesca. A seita dos humanos bebedores de sangue, toda ela dormindo. Cassandra e Angélique molhadas de vermelho. Um cheiro forte de vinho, sexo, suor e esperma abalaram as narinas do vampiro.

-Suas amigas virão comigo. - sentenciou Sammael.


Os policiais encontraram no dia seguinte o lugar coberto de sangue. Denunciados por um vizinho que disse ter ouvido toda a orgia da noite anterior, a seita inteira foi encontrada morta.

Os cadáveres estavam totalmente secos, sem sangue algum. Marcas de mordidas múltiplas nos pescoços das vítimas davam idéia de uma chacina em massa, provocada pelo líder que, aparentemente, depois se suicidou.

-Eles não se diziam vampiros bebedores de sangue humano? - perguntou o repórter, na cena do crime.

-Sim. Eles costumavam beber sangue em orgias entre eles. O líder enlouqueceu, bebeu todos, e se matou. Só uma autópsia pode dizer o quanto de sangue ele ingeriu.

-Eles eram vampiros, então? - insistiu o repórter.

-Só na mente doentia deles. Eram humanos, como eu e você. Apenas fantasiavam. E, todos nós sabemos, vampiros não existem!

-Pelo jeito eles não sabiam disso, oficial?

O policial sorriu, e concluiu:

-Sim. O caso está encerrado. Agora abra espaço para o meu pessoal trabalhar, ok? 


Naquela semana, o Devil´s Whorehouse abriu suas portas novamente. E com três novas empregadas...


"Sodomia" é a grande estréia de Sammael e suas três servas.

Sodomia é uma palavra de origem bíblica usada para designar as perversões sexuais, com ênfase para o sexo anal: "Por este pecado lançou Deus o dilúvio sobre a terra, quando mandou a Noé fazer uma arca, em que escapasse ele e toda sua geração, porque reformou o mundo de novo; e por este pecado sorveu as cidades de Sodoma e Gomorra; por este pecado foi destruída a Ordem dos Templários por toda a Cristandade em um dia."

Foi publicado originalmente em 13.08.01, mas foi revisitado em 13.01.07.

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